Arquivos para novembro 2013

As rendas senhora, as rendas… as flores ..

   Elsa Bettencourt
7 de novembro 2013
Podia ter ficado à janela vendo a cidade lá em baixo. Mas quem me segura, tendo o tal tempo, de sair e mergulhar nela. Fazer turismo num intervalo de trabalho. Fui aprender o que se faz num país que acarinha os seus artesãos e que apesar de ser imenso não se acanha em ir buscar o que de melhor e mais diferente se faz por aqui.
Num sobrado lindo na Rua José Maria Lisboa um Ponto Solidário que contém a raiz cultural deste Brasil Brasileiro. Raiz indígena. Raiz africana. Raiz lusa.
Barro. Madeira. Palha. Sementes.Rendas. Flores de pano. Panos de flores. Colares de contas. Insetos de metal. Ocarinas encantadas. Pega moça. Pega tudo.
Tudo se pega nesta casa.
Pega a simpatia de quem te atende e te explica. De quem quer saber qual a maior influência da mãe lusa.
As rendas, senhora. As rendas.
O resto já sabiam.
Adaptaram.
Transformaram.
A simpatia é toda vossa. Por ser também nossa.
O xingu explicado em português cantado.
O chá bebido fervendo depois da ampulheta amarela vazar.
Bolo de banana com canela.
Picolé italiano de limão siciliano.
Podia ter ficado à janela, mas a cidade me quis nela.
Eu obedeço. Agradeço. E sempre que posso, regresso.

( Obrigada Marilene. As tuas flores de Santa Teresinha, levaram-me lá )

UM ABRIGO DE ARTE, SONHOS E IDEIAS

POR AuthorCARLA CHAGAS | Date28/02/2013 | EM  / 

O lugar que eu conheci dia desses não cabe aqui, num texto. Vai sempre faltar alguma coisa pra se falar da Casa Amarela. Dizer, por exemplo, que ali tem um museu, um espaço cultural e um café é quase nada. Contar que nasceu de uma associação sem fins lucrativos é muito pouco. Falar que a associação virou uma loja que vende, pensa, articula e movimenta o artesanato de várias regiões do país, através do comércio justo, ainda não é suficiente. É que sonho não se explica, não se define. E esse lugar um dia foi o sonho de gente como Idália, Odile e Heráclio, que se concretizou na forma de uma charmosa casa, na Rua José Maria Lisboa, nos Jardins. Sua fachada, coberta de heras verdes, é um convite. Seu portão lateral um transporte. Da loja Ponto Solidário até o Museu Xingu, você pode achar um presente especial ou comer um bolinho de limão com a Lulu, dona de um simpático sorriso e do Café da Casa. Pode marcar uma reunião de trabalho numa sala inspiradora chamada Caranguejo ou participar de um bate-papo com um artesão do Piauí. Pode simplesmente mergulhar em nossa “matriz tupi”, como diria Darcy Ribeiro. Pode mesmo se esquecer do que ia fazer ali, como aconteceu comigo. Pode muito. Pode nada. Pode tudo o que não coube aqui neste meu texto.

 

Ofício das Paneleiras de Goiabeiras – ES

O saber envolvido na fabricação artesanal de panelas de barro foi o primeiro bem cultural registrado, pelo IPHAN, como Patrimônio Imaterial no Livro de Registro dos Saberes, em 2002. O processo de produção no bairro de Goiabeiras Velha, em Vitória, no Espírito Santo, emprega técnicas tradicionais e matérias-primas provenientes do meio natural. A atividade, eminentemente feminina, é tradicionalmente repassada pelas artesãs paneleiras,  às suas filhas, netas, sobrinhas e vizinhas, no convívio doméstico e comunitário.

A panela de barro – fruto de um conjunto de saberes – constitui suporte indispensável para o preparo da típica moqueca capixaba e continuam sendo modeladas manualmente com o auxílio de ferramentas rudimentares, a partir de argila sempre da mesma procedência Produto da cerâmica de origem indígena, o processo de produção das panelas de Goiabeiras conserva todas as características essenciais que a identificam com a prática dos grupos nativos das Américas, antes da chegada de europeus e africanos. Depois de secas ao sol são polidas, queimadas a céu aberto e impermea-bilizadas com tintura de tanino.

Apesar da urbanização e do adensamento populacional que envolveu o bairro de goiabeiras, fazer panelas de barro continua sendo um ofício familiar, doméstico e profundamente enraizado no cotidiano e no modo de ser da comunidade de Goiabeiras Velha. É o meio de vida de mais de 120 famílias nucleares, muitas das quais aparentadas entre si. Envolve um número crescente de executantes, atraídos pela demanda do produto, promovido pela indústria turística como elemento essencial do “prato típico capixaba”.

De fato, no Espírito Santo as panelas de barro são o recipiente indissociável de moquecas de peixe e outros frutos do mar, como também da torta capixaba, sagrada iguaria tradicionalmente consumida na Semana Santa. Ícones da identidade cultural capixaba, a torta, as moquecas e as panelas de barro ganharam o mundo e configuram, na literatura gastronômica, “a mais brasileira das cozinhas”, por reunirem e mesclarem elementos das culturas indígena, portuguesa e africana.
O processo de produção das panelas de Goiabeiras conserva todas as características essenciais que a identificam com a prática dos grupos nativos das Américas, antes da chegada de europeus e africanos.

As panelas continuam sendo modeladas manualmente, com argila sempre da mesma procedência e com o auxílio de ferramentas rudimentares. Depois de secas ao sol, são polidas, queimadas a céu aberto e impermeabilizadas com tintura de tanino, quando ainda quentes. Sua simetria, a qualidade de seu acabamento e sua eficiência como artefato devem-se às peculiaridades do barro utilizado e ao conhecimento técnico e habilidade das paneleiras, praticantes desse saber há várias gerações. A técnica cerâmica utilizada é reconhecida por estudos arqueológicos como legado cultural Tupi-guarani e Una2, com maior número de elementos identificados com os desse último. O saber foi apropriado dos índios por colonos e descendentes de escravos africanos que vieram a ocupar a margem do manguezal, território historicamente identificado como um local onde se produziam panelas de barro.

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) 

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