A vontade da arte pode se manifestar em qualquer homem de nossa terra, independente do seu grau meridiano, seja ele papua ou cafuso, brasileiro ou russo, negro ou amarelo, letrado ou iletrado, equilibrado ou desequilibrado“. 

Mario Pedrosa

Em todos os tempos, o homem se manifesta pela arte, seja pela necessidade de buscar utensílios para sua vida cotidiana, seja pela necessidade de se comunicar com o outro. E sua manifestação artística revela sua origem, tradição, seu modus vivendi e seu habitat.

Pensar em artesanato é procurar entender a relação do homem com a natureza. E não por acaso o artesanato cria grande satisfação, alegria  e identificação com o produto criado.

Como diz o poeta Octávio Paz,  “Entre o tempo do museu e o tempo acelerado da técnica o artesanato é a palpitação do tempo humano”.

Se opondo a linha de montagem criada com a revolução industrial,  já na metade do século XIX,  surge na Inglaterra o grupo Arte e Ofícios em contraponto a mecanização, valorizando o artesão. Na Idade Média, quando tudo era produzido artesanalmente o termo Oficina já era empregado, nos ateliês de artesãos e aprendizes.  Hoje com a internet as distâncias se encurtaram e os artesãos limitados no passado à visitação in loco conquistaram mais visibilidade em rincões pelo mundo afora.

O artesão valorizado acaba por envolver toda a sua família e sua comunidade no ofício. Regiões passam a ser identificadas como referência no artesanato introduzido pelo mestre e se seus aprendizes, com características e identidades próprias. 

No Brasil temos grandes mestres, entre muitos que fizeram escola: Mestre Noza (1897- 1984), em Juazeiro, no Ceará; Mestre Vitalino (1909-1963), em Caruaru, em Pernambuco; Mestre Dezinho (1916-2000), no Piauí; e Mestre Artur Pereira ( 1920-2003); Mestre Julião (1959-2004), e Dona Isabel (1924-2014) do Vale do Jequitinhonha, os três últimos de Minas Gerais, entre muitos outros.

O Ponto Solidário, arte sociocultural,  desde 2002, procura valorizar e divulgar o trabalho das oficinas dos mestres artesãos das comunidades regionais, comunidades indígenas, e das iniciativas que vislumbraram no artesanato um meio de inserção social. Sendo o Brasil considerado um dos maiores polos do artesanato mundial e responsável pelo sustento de muitas famílias e comunidades no país.

“As primeiras manifestações artísticas no Brasil, datam de cerca de 100 mil anos, são as pinturas rupestres, encontradas nos anos 70, pela arqueóloga Niéde Guidon, no Piauí, que inspiraram a “Cerâmica da Serra da Capivara” e a criação do “Parque Nacional da Serra da Capivara”, em 1979.

 

As pinturas rupestres da Serra da Capivara guardam registros da fauna da época (Período Paleolítico) e de como os homens se relacionavam no cotidiano, com a natureza, e de como era a espiritualidade desses primeiros ameríndios. Não existe um consenso, entre os historiadores, sobre o que representam de fato as pinturas rupestres. Há vestígios de carvão, que denotam o conhecimento do fogo, e o curioso é que estão em locais de difícil acesso, em paredões íngremes expostas a altas temperaturas, 45ºC.

Já os primeiros objetos feitos pelo homem são da idade de polir a pedra (Neolítico): a cerâmica como utensílio para armazenar e cozer alimentos;  a tecelagem das fibras animais e vegetais.  O homem passou a se fixar na terra, deixou de ser nômade. Na Ilha de Marajó encontram-se as primeiras cerâmicas do Brasil, uma cerâmica sofisticada, entalhada e em relevo, com desenhos labirínticos, figura antropomorfas, pigmentos vermelho, preto e branco, vestígios desse primeiros índios que denotam uma origem diferente dos índios das outras regiões do Brasil. Icoaraci, a 20 km de Belém do Pará é o centro desse artesanato e Mestre Cardoso (1930-2006) conhecido pelas réplicas desse período histórico.  E o Museu Goeldi, desde 1866, passagem obrigatória, para quem visita Belém do Pará.

“Os objetos de artesanato pertecem a um mundo anterior à separação entre o útil e o belo”.

Octávio Paz

Antes da chegada dos portugueses viviam no Brasil cerca de 6 milhões de índios, hoje são cerca de 800 mil. Produziam o necessário para a sobrevivência, e quando a terra não produzia mais, mudavam de habitat. Praticavam a “coivara”, derrubada e queima da mata, prática hoje proibida. E alguns estudos identificam que plantavam espécies já domesticas enriquecendo a floresta nativa.  Ainda hoje, nas reservas indígenas, aliam o fazer artesanal às atividades diárias, fiam o buriti, o algodão, confeccionam as redes de dormir, os cestos, os mantos, tipóias para carregar bebes, colares, cocares, canoas, bancos e adornos corporais. E no que fazem imprimem sua arte, seu grafismo, tradições culturais passadas por gerações. Cada etnia com suas próprias características. Como diz o poeta Octávio Paz, “não existe a separação entre o útil e o belo”, e o indigenista Orlando Villas Bôas completa, para o índio “panela tem que ter pintura, não importa se será queimada e a pintura desfeita”. 

O Ponto Solidário sempre esteve ao lado do Museu Xingu, um pequeno museu que reúne artefatos coletados na Expedição Roncador Xingu, pelos irmãos Villas Bôas, expedição essa que culminou com a primeira reserva indígena do país, o Parque Indígena do Xingu, homologado em 1961. Essa proximidade com o museu favoreceu o contato com os índios, que ao visitarem o Museu, se sentem valorizados e cientes da sua importância cultural nos fazeres tradicionais.

As redes, esteiras e cestos “kunhos” dos índios Mehinako, decorado com cores e grafismos fortes, revelam a alegria de viver desse povo do Alto Xingu.

Tão antigo quanto a cerâmica é a arte de trançar. Segundo a definição de Berta Ribeiro, “essa importante técnica de manufatura, utilizando a mão desarmada ou os dedos em atividade prensil, remonta de 11 mil a.C., e só não é mais antiga que a confecção de cordas, malhas ou filé.”

A riqueza dos trançados, segundo a tradição de cada região, de cada povo, e da diversidade de fibras vegetais,  se estende por cada canto desse país. Mas apesar da diversidade e beleza é pouco valorizada como arte, com poucos mestres conhecidos,  uma lacuna em aberto.  Arriscaríamos dizer que os Mehinako, no Xingu, são artistas, a liberdade de expressão e alegria que pulsa está revelada nos grafismos de suas esteiras, redes e cestos “kunhos”. Do talo do Buriti sai a tala, fibra dura, utilizada para cestos e esteiras. E ainda os fios, que enrolados na coxas das mulheres viram corda e novelos para o trançado da rede, que leva cerca de um a dois meses.

Conhecer a natureza, respeitar os ciclos, o colher na hora certa são saberes que os índios dominam. E cada etnia tem seu trançado característico, e fibras específicas. É tarefa masculina a confecção de cestos. A cestaria Yanomami é uma das que mais resiste ao tempo e ao manuseio, utilizam o cipó titica.   No Xingu, o Buriti é a fibra mãe, encontrada nas paisagens dos cerrados, nas veredas imortabilizadas pelo escritor Guimarães Rosa.